Metanoia

Movimento Católico de Profissionais


Apresentação

logótipo - Metanoia

O Metanoia - Movimento Católico de Profissionais é, estatutariamente, uma associação privada de fiéis.

Linhas de Identidade

"É espaço e tempo de encontro, acolhendo pessoas, crentes ou não, nas mais variadas circunstâncias de vida. O encontro acontece a partir do que cada um vive e transporta, procurando não separar interioridade e exterioridade, reflexão e vivência, princípios e acção, espiritualidade e cidadania, opções pessoais e futuro das nossas sociedades."

Objetivos

O Metanoia propõe-se construir comunidade entre pessoas com condições pessoais, profissionais e percursos de vida diversos, para quem o encontro e a celebração da fé em Jesus Cristo é indissociável de abertura aos outros, num processo nunca acabado de conversão pessoal Fazêmo-lo recorrendo a formas organizativas que queremos leves e flexíveis, baseadas nos princípios da participação democrática, da corresponsabilidade, do voluntariado e da assunção colectiva dos encargos.

Um espaço de descoberta e vivência da fé que dá sentido ao vivido, que integra e inclui a partir do essencial – Jesus que nos seus gestos e palavras sempre amou e incitou ao amor.

Uma experiência de Igreja construída na fragilidade e que bebe da sabedoria de tantos homens e mulheres que viveram e vivem a experiência de Deus e dão sentido à paixão de Jesus.

Um espaço de liberdade, corresponsabilidade, reflexão e partilha de vida, de conversão e aprendizagem com os outros.

A adesão ao Metanoia é individual

São associados do Metanoia todos aqueles que, reconhecendo-se nas suas linhas de identidade e dinâmicas, manifestem a vontade de o serem, se disponham a participar nas suas iniciativas e se responsabilizem pela sua manutenção, expressa pelo pagamento de uma quota mínima mensal estabelecida em Assembleia do Movimento.

Dinâmicas do Metanoia

O Metanoia adopta formas organizativas variadas de modo a responder às disponibilidades e circunstâncias de vida dos associados.

Assembleia do Movimento – reúne anulamente para reflectir sobre a experiência, programar o ano seguinte e eleger a Equipa Coordenadora e o Conselho Fiscal.

Encontro de Reflexão Teológica – realiza-se anualmente, no final de Julho, e é um espaço de reflexão e formação em que também se valoriza o convívio, estando organizado de modo a permitir a participação de toda a família.

Sessão de Estudos – encontro de reflexão, aberto a não associados, que se realiza anualmente, por altura do Carnaval.

Encontros Locais – em cada local, ou região, segundo a dinâmica dos associados.

Viragem – revista quadrimestral publicada por iniciativa do Metanoia e que é um espaço de diálogo, aprofundamento e confronto de ideias. Constitui também um meio de divulgação do Metanoia e da reflexão que no seu interior se realiza.

Folha de Ligação – dirigida aos associados, dá conta da vida interna do movimento.

Web site: www.metanoia-mcp.org

Interligar pessoas – espalhadas por vários pontos do país e com diferentes experiências eclesiais.

O Metanoia - Movimento Católico de Profissionais é, estatutariamente, uma associação privada de fiéis. Reune pessoas com diversas experiências e sensibilidades, disponíveis para procurarem sentidos de vida no encontro e na partilha, tendo como referência o Evangelho de Jesus.

Linhas de Identidade

o que somos, o que queremos ser

Este texto condensa a memória de um caminho percorrido, comporta o desejo de um futuro e oferece-se como convite a todos os que o queiram partilhar. 

O Metanoia – Movimento Católico de Profissionais constitui-se como espaço e tempo de encontro, acolhendo pessoas, crentes ou não, nas mais variadas circunstâncias de vida. O encontro acontece a partir do que cada um vive e transporta, procurando não separar interioridade e exterioridade, reflexão e vivência, princípios e acção, espiritualidade e cidadania, opções pessoais e futuro das nossas sociedades. 

Resistir a tais separações é dar lugar a uma atitude participativa – "sou parte do que se cruza na minha vida "— e à consciência da presença do outro como dom e como exigência. 

Precisamos e gostamos do debate, de questionar a ordem do mundo que vivemos e que fazemos, de interrogar a nossa fé e a nossa vida e de as celebrar em conjunto, festejando o encontro dos que procuram Jesus ressuscitado.

Procuramos reflectir sobre toda a realidade, sem programas de acção social, política ou eclesial, muito menos orientações de índole profissional; somos parte dessa realidade, dela partindo e a ela voltando, como esforço de compreensão aprofundada e abertura a empenhamento consequente. 

Pretendemos criar e manter espaços de liberdade, de corresponsabilidade, de reflexão e partilha de vida, de conversão, de aprendizagem uns com os outros. Espaços onde cada um se sinta reconhecido, no respeito pela sua individualidade e autonomia. 

Assumindo a nossa condição de homens e mulheres, filhos de Deus, queremos aprender com Jesus o que é tornar a vida bem-aventurada – uma aventura de bem. Uma aventura em simplicidade, pureza, mansidão de coração, dispondo-nos a confiar, a persistir e a valorizar as potencialidades dos outros; uma aventura em misericórdia, em compaixão e ternura que aceita o mistério inscrito na vida, naquilo que nós próprios transportamos, incluindo as nossas imperfeições; uma aventura em justiça, construindo um mundo com um horizonte de inclusão do estranho e do aflito; uma aventura em paz, a paz de Jesus que se centra no amor (a não morte), desafiando-nos a inventar novas formas de relacionamento que não fujam nem ao desejo nem ao conflito; uma aventura em despojamento, em disponibilidade e em abertura, características dos pobres. 

Viver na fé em Jesus Cristo é sentirmo-nos escolhidos. É essa escolha primordial que nos liberta para a aventura de viver. Esta certeza de um reconhecimento que antecede e está para além dos nossos merecimentos funda-nos na confiança, condição de liberdade e de perdão. 

Descobrimos que a fé em Jesus ultrapassa o religioso - o que importa para Jesus é o homem novo que está em cada um de nós e se revela no viver. A experiência de fé situa-se na pertinência e no sentido do vivido e não pode, por isso, reduzir-se a um conjunto de práticas que, sendo ordenadoras, excluem os menos conformes. A proposta da fé integra e inclui a partir do essencial – Jesus Cristo que nos seus gestos e palavras sempre amou e incitou ao amor. 

Olhamos para o mundo como lugar de manifestação e presença de Deus, lugar de realização do homem e da mulher. Um mundo ainda fragmentado e incerto, tão esquivo à nossa ânsia de explicação, um mundo onde tantas urgências de recomposição e de religamento pedem disponibilidade, inteligência e dedicação. Hesitamos porque queremos tudo saber antecipadamente, controlar os processos e os resultados. E, no entanto, as ruas das cidades, as escolas, os hospitais, os media, as igrejas aí estão a solicitar criatividade, acção consequente para que a vida seja mais suportável para tanta gente que precisa de se sentir acolhida e reconhecida na sua dignidade. Esta preocupação passa pelo envolvimento na actividade profissional, que não esgota a dimensão da intervenção social e política.

Assumindo-nos como expressão de Igreja, temos consciência de que somos uma experiência construída na fragilidade, que bebe da água da sabedoria de tantos homens e mulheres que viveram na busca de Deus e deram sentido à paixão de Jesus. Não temos a pretensão de esgotar os diferentes níveis e modos de viver em comunidade; a nossa vivência eclesial, enquanto movimento, enriquece e é enriquecida pela nossa participação noutras instâncias e dimensões de vida em Igreja. 

Sabemos, por experiência própria, que a Igreja se vive em comunidades que não são perfeitas, nem constituídas por pessoas perfeitas, mas pelos homens e pelas mulheres que aceitam o desafio de Jesus Cristo e lhe vão respondendo de diferentes maneiras, em dinâmicas de descoberta e de construção. 

As formas organizativas do Metanoia procuram ser leves e flexíveis e assentam nos princípios da participação democrática, da corresponsabilidade, do voluntariado e da assunção colectiva dos encargos. É nosso propósito assegurar o auto-financiamento das nossas actividades, sem recorrer a apoios de que outros bem carecem. Os encontros, a publicação da revista Viragem, os meios electrónicos de comunicação, as coordenações locais e a nacional, são formas concretas de manter contactos, criar comunidade, fazer rede, partilhar reflexão, seja entre os associados do Metanoia, seja em círculos mais alargados da Igreja e da sociedade. 

Participar no caminho, participar nos custos, participar nas decisões e no serviço à comunidade - eis a forma como procuramos viver esta outra faceta da nossa cidadania.

 

 Aprovado na Assembleia do Movimento, 

a 15 de Outubro de 2000, em Albergaria - a - Velha.

 

 
Viragem nº 63 - Disponível para Download AQUI
V63 capa
Viragem, uma nova etapa
 
Este número digital da Viragem marca uma etapa nova na revista. A partir de agora, a publicação do Metanoia passa a estar disponível apenas neste suporte, abandonando o formato em papel. Com isto, pretende-se agilizar a produção de uma publicação que, sem grandes pretensões, deseja contribuir, entre outras coisas, para a formação de uma consciência crítica dos crentes católicos e o debate sobre o papel dos cristãos na sociedade e na Igreja contemporâneas.
A mudança de formato é apenas isso. Ela permite, obviamente, redesenhar a apresentação gráfica, de modo a tornar mais atractiva a leitura dos textos. Mas procurará, no conteúdo, prosseguir a linha de abertura à pluralidade de ideias, de confronto saudável de opiniões, de reflexão sobre a realidade.
Este número apresenta as reflexões feitas no Encontro de Reflexão Teológica, organizado pelo Metanoia, em 2013. A partir do tema As Bem-Aventuranças em tempo de desventura, o dominicano frei Mateus Cardoso Peres fez duas reflexões, sobre o significado bíblico e teológico daquele texto evangélico e o modo como ele pode hoje ajudar a “delinear alguma coisa de novo, de diferente, e também para mostrar a fecundidade deste ensinamento evangélico”. Com o mesmo tema por referência, vários outros participantes no encontro reflectiram sobre cada uma das bem-aventuranças, e esses textos são também aqui apresentados.
Este tema e as reflexões que ele suscita surgem num momento em que o catolicismo vive um desafio novo, com a dinâmica proposta pelo Papa Francisco. Uma dinâmica que aponta no sentido da conversão interior de cada um, mas também na forma de a Igreja estar presente na sociedade e no modo como o mundo é governado: a pessoa deve estar no centro de cada decisão, seja ela religiosa, política ou económica. Para essa reflexão e esse debate pretende também contribuir este número da Viragem.
António Marujo
 
 

 

Metanoia: uma longa conversa e alguns desafios para o futuro...

 

Paulo Melo

 

Introdução

Há dois anos, quando o Metanoia, Movimento Católico de Profissionais, completou 10 anos elaborou-se um esboço de cronologia que serviu de base à reflexão desenvolvida numa Reunião da Equipa Coordenadora Alargada e que deveria, depois das correcções que se achasse por bem introduzir, ter sido publicada. Não foi... 

Agora, quando se prepara a Assembleia que, em Outubro, fará o balanço do último biénio, definirá linhas de orientação para o próximo e escolherá os que mais directamente se encarregarão da coordenação e quando optamos por reflectir com mais profundidade a nossa experiência de Igreja na sessão de estudos que antecede a Assembleia, decidiu a Equipa Coordenadora retomar esse texto como um dos elementos para a reflexão a fazer.

Porém, ao relê-lo, pareceu mais interessante dar-lhe uma outra organização que não a da simples sequencialidade cronológica de modo a pôr em evidência as principais opções e realizações destes doze anos. Fazê-lo, rompe com a linearidade aparentemente neutra de uma cronologia e implica escolhas, naturalmente subjectivas e sujeitas a contraposição, por parte do seu autor. Procura-se manter o essencial da informação factual recolhida na referida cronologia, só que organizada por temas e evidenciando as questões que merecem, a nosso ver, reflexão e debate na próxima Assembleia.

As grandes decisões quanto à natureza da organização 

No momento da fundação, no encontro de Coimbra, no Instituto Justiça e Paz, em Fevereiro de 1986, assumiram-se algumas intuições que davam ao Metanoia uma identidade inconfundível no contexto da Igreja portuguesa. Os Estatutos definiam-no como uma associação pública de fiéis que se propunha "suscitar, desenvolver e aprofundar, em colaboração com a Hierarquia e segundo as directrizes do Concílio Vaticano II, a participação dos seus membros na acção apostólica da Igreja dirigida aos diferentes meios profissionais não enquadráveis nas categorias de meios rurais ou operários." Previam, ainda, que o movimento tivesse um assistente eclesiástico nomeado pela Conferência Episcopal, depois de ouvido o Conselho Nacional, com a função de incentivar "uma espiritualidade laical, contribuir para um exigente aprofundamento teológico e celebração da fé, bem como promover uma estreita ligação entre o movimento e a Hierarquia." A adesão ao Metanoia era definida como individual, rompendo-se assim com a quase obrigatória referência a um grupo, característica da Acção Católica.

Nas Linhas de Identidade então aprovadas valorizava-se a "atitude pedagógica face aos outros, de modo a respeitar ritmos diferentes, etapas distintas na carreira profissional e diversas formações". Esta formulação favorecia a diversidade de modalidades e métodos nas iniciativas do Metanoia. Contribuir para uma maior abertura da Igreja portuguesa aos problemas, anseios e comportamentos dos profissionais" e "construir uma dinâmica que permita aos católicos presentes nos meios profissionais o confronto da vivência da profissão com as interrogações fundamentais que Cristo coloca aos homens de fé" foram objectivos então assumidos.

Embora muitos dos seus fundadores fossem provenientes dos movimentos juvenis da Acção Católica, verifica-se já no momento da fundação uma vontade de desenvolver o Metanoia fora desse enquadramento eclesial. Por isso, nada se determina quanto a dinâmicas de encontro entre os associados e metodologia de reunião, elementos identificadores da Acção Católica. Mantinha-se, no entanto, o propósito de colaborar com a Hierarquia na acção apostólica da Igreja e a presença de um assistente nomeado na Equipa Nacional, o que era claramente da tradição da Acção Católica.

O III Conselho Nacional, realizado em Valadares, de 12 a 14 de Outubro de 1990, constitui um outro momento importante para a definição da identidade do Metanoia, enquanto organização cristã. Antecedeu-a um período de alguma letargia reconhecida por Manuel Pinto, na Folha de Ligação n.º 13, "Por razões que certamente teremos ocasião de reflectir em comum, o Metanoia tem estado a 'marcar passo'. Há muito que a Folha de Ligação não é publicada; as reuniões da Equipa Nacional perderam balanço; a energia e frescura dos primeiros anos de vida como que se esvaiu."

Neste Conselho Nacional tomaram-se opções que redefinem a identidade do Metanoia. Assim, e uma vez que os estatutos ainda não tinham sido aprovados pela Conferência Episcopal, opta-se pela modalidade jurídica de associação privada de fiéis e a Equipa Coordenadora deixa de ter um assistente eclesiástico nomeado. António Matos Ferreira, no editorial da FL n.º 19, justifica a opção pela associação privada de fiéis como a mais capaz de "1) garantir uma autonomia e uma responsabilização dos associados; 2) permitir, através de um estatuto mais flexível e amplo, a integração e a participação de pessoas com diversas sensibilidades e experiências eclesiais." Defende, também, a abolição da função de assistente eclesiástico como forma de assumir plenamente a corresponsabilização dos leigos cristãos, podendo os presbíteros ser associados do Metanoia como quaisquer outros.

Das linhas de orientação então aprovadas destaca-se:

apostar, a nível local, em dinâmicas de encontro regulares e abertas a todos os que nelas quisessem participar publicar uma revista, espaço de diálogo com a sociedade e as comunidades cristãs que ultrapassasse o âmbito do Metanoia;

promover anualmente, no final de Julho um Encontro de Reflexão Teológica, prevendo a existência de uma dinâmica para crianças de modo a que também participassem plenamente nestes encontros. Para concretizar estes objectivos, foi alterado o sistema de cotizações, passando cada membro a pagar uma cota mínima mensal de 1000$00, o que permitiu contratar um secretário a meio tempo, libertando a Equipa Coordenadora das tarefas de expediente.

Ficou, assim, definido um modo de funcionamento que, no essencial, se tem mantido até agora. O Metanoia assume-se como um espaço de procura e de encontro, de diálogo e de oração e é, desse modo, que, a partir das vidas nem sempre fáceis dos que nele participam, potencia um dinamismo de evangelização. Vale mais pelo gosto e sentido que tem para os seus membros do que pela pretensão de mudar o mundo e a Igreja, ainda que pela sua própria natureza potencie a mudança. A publicação de uma revista inscreve-se nesta mesma perspectiva de favorecer plataformas de reflexão amplas que acolham vozes plurais interiores ou exteriores à Igreja.

Expressão pública

As tomadas de posição públicas marcaram os dois primeiros anos de vida do Metanoia. Exprimem uma vontade de contribuir para o debate de questões sociais e eclesiais relevantes, dentro e fora da Igreja, enquanto leigos, católicos, presentes nos mais diversos meios profissionais.

Em Agosto de 1986, a Equipa Nacional assina uma tomada de posição pública sobre os problemas da saúde. Estas questões estavam na ordem do dia devido às inspecções aos hospitais, ordenadas pela então ministra Leonor Beleza, que revelavam irregularidades e abusos por parte dos médicos, tendo a Ordem e outras organizações de médicos reagido de forma indignada. Nela dizia-se: "os serviços de saúde existem para prevenir e tratar as doenças. Os utentes são um fim e não um meio. E a este princípio fundamental, mas frequentemente secundarizado, terão de se subordinar quaisquer interesses corporativos ou políticos."

Alguns associados discordaram do conteúdo do texto, o que está documentado na F.L.3, numa explicação de José Maria Azevedo que reconhece a impossibilidade de proceder a uma consulta mais alargada aos associados e regista como salutares as críticas, e na F.L.4 em dois comentários ao texto divulgado, um crítico, outro concordante.

A 15 de Janeiro de 1987, a Equipa Nacional do Metanoia dirige uma carta aos bispos a propósito da polémica entre a Conferência Episcopal e a Assembleia da República sobre a "Lei da Rádio". Nela se questiona a crítica demolidora e negativista feita pelo Episcopado por poder contribuir "para desacreditar o próprio regime democrático e criar um clima emotivo de afrontamento social..."; sugere-se "uma reflexão de fundo sobre o espírito evangélico e a orientação pastoral que informa ou deveria informar o conjunto da mensagem difundida pela emissora da Igreja" e defende-se que quantos menos privilégios detiver mais livre será a Igreja no cumprimento da sua missão.

A esta carta sucede-se uma outra dirigida a D. António Marcelino, presidente da Comissão Episcopal da Acção Social e Caritativa, em Março de 1987. Nela, a Equipa Nacional manifesta a sua preocupação com o apagamento em que estava a Comissão Nacional Justiça e Paz. "As sequelas sócio-económicas e culturais da integração na CEE, as gravíssimas situações que se vivem no mundo do trabalho, o fenómeno da corrupção, o comportamento do nosso país no mercado de venda de armamento" são questões a merecer uma abordagem pela referida Comissão. Avança, também, algumas sugestões para uma reestruturação ou recomposição da Comissão Nacional Justiça e Paz.

A última intervenção pública formal da responsabilidade exclusiva do Metanoia data de Março de 1988 e pronuncia-se sobre propostas de alteração da legislação laboral que visavam facilitar os despedimentos. "Não se pode pura e simplesmente transpor para Portugal modelos em vigor em economias bem mais produtivas do que a nossa e em sociedades com esquemas de segurança social incomparavelmente mais eficazes. (...) A resolução de muitos dos actuais problemas de organização do trabalho exige uma atitude nova da parte dos parceiros sociais. No entanto, a flexibilidade nos horários e nos estatutos ou a versatilidade no tipo de trabalho não pode ser impedida nem mesmo confundida com a precarização e a insegurança nas relações laborais. (...) importa desde já promover uma profunda mudança de atitudes tendente a valorizar de igual modo trabalho directamente produtivo e trabalho socialmente útil." — excertos dessa tomada de posição.

Em 1990, a opção pela publicação de uma revista — Viragem — consubstancia uma mudança de orientação. Mais do que posições formais sobre problemáticas candentes da sociedade e Igreja portuguesas, que nem sempre mereciam a concordância de todos os associados, pretende-se promover um espaço regular de reflexão e diálogo plural que contribua para o esclarecimento e formação de correntes de opinião. Tal não tem impedido a participação do Metanoia e de seus associados em movimentos de opinião em conjunto com outras experiências cristãs.

Saber se o Metanoia deve ou não tomar posições públicas sobre problemas sociais e questões eclesiais continua a ser uma questão em aberto. Possuímos um património de reflexão que permanece pouco visível quando poderia contribuir para o reforço de um debate sério que transcenda a defesa corporativa de interesses particulares, de que a sociedade portuguesa tanto carece. Mas, para que a sua formalização seja consensual entre os associados do movimento, corre-se o risco de ser tão genérica que nada acrescente. A alternativa passa por o Metanoia constituir-se através da Viragem e dos momentos de encontro locais e nacionais num espaço de expressão livre de opinião fundamentada, ainda que discordante. Sistematizar, condensar e publicitar mais os debates que regularmente realizamos, profissionalizar o processo de produção da Viragem de modo a garantir a sua saída regular e uma maior "penetração no mercado" podem ser caminhos a seguir.

Encontros de Âmbito Nacional

Nem todos os associados têm possibilidade de participar em dinâmicas locais de encontro regulares. Os momentos da vida pessoal, familiar e profissional nem sempre permitem uma participação frequente. São os filhos pequenos, as teses académicas, a mobilidade geográfica, a intervenção cívica e política que, em muitos casos, dificultam o encontro. Noutros casos, é o isolamento geográfico que o impossibilita.

Todos têm, desde que o queiram, lugar no Metanoia, de acordo com a sua disponibilidade e interesses. Os encontros de âmbito nacional, mais esporádicos e convocados com maior antecedência, constituem ocasiões de participação para todos os associados. A Folha de Ligação e a Viragem são outros meios de alimentar as diferentes formas de pertença ao Metanoia.

O Encontro de Reflexão Teológica, que se realiza anualmente nos finais de Julho, desde 1991, tem sido um espaço de encontro, de reflexão, de convívio para muitos associados e suas famílias, uma vez que sempre se cuidou de dinâmicas destinadas às crianças.

Entre 1990 e 1996, realizaram-se várias reuniões da Equipa Coordenadora alargada. Estes encontros substituíram, neste período, os encontros nacionais abertos a todos os associados e amigos. Nestas reuniões participavam os membros da Equipa Coordenadora e um conjunto de convidados de locais onde o Metanoia já estava implantado ou em vias de implantação. Pretendia-se, deste modo, envolver mais associados na dinâmica de reflexão e coordenação do Metanoia. Algumas destas reuniões debruçavam-se sobre problemáticas específicas da sociedade e da Igreja portuguesas; outras incidiam mais sobre a vida do movimento. Os associados eram convidados também em função das suas competências nas questões que estavam em análise.

Nos últimos dois anos, retomou-se a prática de realizar, anualmente, um encontro temático aberto a todos os associados e pessoas envolvidas nas dinâmicas do Metanoia.

Os temas debatidos, os peritos convidados, os textos produzidos mereciam análise mais detalhada que não cabe no âmbito deste texto. Limitámo-nos a enunciá-los, em anexo.

A longa lista dos encontros e reuniões, que pontuaram os 12 anos de existência do Metanoia, é expressão da grande variedade de temáticas e das pessoas que nos ajudaram na reflexão. Algumas vezes antecipámos questões que, mais tarde, adquiriram relevância na opinião pública nacional.

Como se pode verificar pela lista, recorreu-se quase sempre ao convite a peritos que, na maior parte dos casos, não eram associados do Metanoia. Foram, sem dúvida, momentos de enriquecimento pessoal e comunitário, com debates muito participados. Persiste, no entanto, a questão de saber se não temos abdicado, em demasia, de espaços de âmbito nacional em que todos nos possamos dizer, com uma componente mais acentuada de trabalhos de grupos, mais propícios a uma participação generalizada.

Os Encontros de Reflexão Teológica têm-se revelado momentos importantes na vida do Metanoia: espaços de aprofundamento, de oração, de convívio, de festa, de corresponsabilidade. O baixo número de participantes no último encontro, aponta, no entanto, para a necessidade de se avaliar da adequação da data em que habitualmente se realiza, mesmo sabendo-se que nunca haverá datas que convenham a todos e que participar em qualquer iniciativa colectiva implica sempre uma predisposição e a definição de prioridades no planeamento da nossas vidas pessoais e familiares.

As publicações: Folha de Ligação, Viragem, site na Internet

A Folha de Ligação, de que se publicaram 36 números, tem sido o meio de comunicação interno do Metanoia. Com o início da publicação da Viragem, assumiu um carácter informativo das iniciativas locais e nacionais do movimento, uma vez que os textos de maior aprofundamento passaram a sair na revista. Durante algum tempo, a saída da F.L. coincidiu com a da Viragem, o que deixou de acontecer por se considerar que as duas publicações cumprem funções diferentes na vida do Metanoia, não devendo o ritmo de publicação de uma estar condicionado ao da outra.

Mesmo com o carácter de órgão informativo interno, a F.L.pode reforçar o seu papel de ligação entre os associados do Metanoia se, para além de informar da realização e temas dos diversos encontros, passar a incluir uma pequena resenha dos mesmos. Mas esse é já um propósito antigo...

Da Viragem não saíram todos os números previstos; recorreu-se a alguns números duplos para compensar atrasos. O seu processo de produção tem estado sujeito a diversas vicissitudes que impedem que seja uma presença regular junto dos associados e assinantes. O esforço que está por trás de cada número é muito grande. A tiragem (500 exemplares) é reduzida. Não temos acesso a meios eficazes de distribuição. A qualidade e pertinência da maioria dos textos merecia mais...

Ainda assim quando se lê ou relê números mais recentes ou mais antigos, quando simplesmente se folheia a colecção das revistas, reconhece-se o valor do trabalho desenvolvido. Com um maior recurso a traduções, com maior colaboração dos associados e de amigos convidados a escrever, a Viragemtem sido, desde 1990, um meio de divulgação de pensamento que, de outra forma, ficaria circunscrito a bem poucos e tem constituído um incentivo para que muitos sistematizem o que pensam e sentem, o que, se assim não fosse, nunca aconteceria, pelo menos com a perenidade relativa da letra impressa. Valeria a pena fazer um índice temático de todos os artigos até agora publicados.

A sua produção tem dependido da iniciativa dos sempre muito ocupados membros da Equipa Coordenadora e do trabalho do Secretário, a meio tempo. Há aspectos que podem e devem ser melhorados, nomeadamente no que respeita à composição, impressão e expedição da revista, mesmo com as actuais condições de produção. Ultrapassar em definitivo os atrasos que, desde de sempre, têm marcado a sua existência só com uma estrutura mais profissionalizada, mais pesada e mais cara que não é compatível com o regime de voluntariado da Equipa Coordenadora. Pode-se, no entanto, admitir a possibilidade de tornar a revista mais autónoma em relação à coordenação do Metanoia. Haverá associados com vontade e disponibilidade para assumir este projecto em articulação com a Equipa Coordenadora?

Por iniciativa da associada Céu Tostão, o Metanoia tem um site na internet  http://www.terravista.pt/IlhadoMel/1821/

A Viragem pode passar a ter, também, uma versão on line. Para além de algumas questões técnicas a resolver, importa avaliar o interesse desta iniciativa e definir os processos para assegurar uma participação mais alargada na construção de um fórum permanente de reflexão e debate.

O Metanoia na Igreja em Portugal

Duas cartas dirigidas à Hierarquia da Igreja em 1987, pedidos de audiência a bispos das dioceses onde havia dinâmicas de associados, convites regulares aos bispos para as nossas iniciativas documentam, nos dois primeiros anos de existência do Metanoia, uma vontade de contribuir, enquanto movimento, para um diálogo institucional.

Nos anos subsequentes, vários associados participaram nos Congressos Diocesanos e Nacional de Leigos, tendo mesmo assumido funções de relevo na sua preparação e realização.

Apesar de muitos de nós terem continuado a participar regularmente em várias iniciativas das suas Igrejas locais, o Metanoia, nos últimos oito anos, deixou de manter relações institucionais regulares com a hierarquia da Igreja Católica em Portugal. Continuamos a convidar para as nossas Assembleias Gerais os bispos da dioceses onde se realizam, sem, no entanto, ultrapassar o nível da comunicação formal e vaga.

A vocação para uma intervenção sistemática e intencional na vida da Igreja em Portugal foi-se esvaindo ao longo dos anos. Mais do que dinâmica de intervenção para a mudança, o Metanoia foi-se assumindo como espaço de experiência cristã para os que nele participam. Constrói-se o sentido da pertença ao Metanoia pelo significado que ele tem para a vida dos que o procuram e concretizam, mais do que por qualquer vontade de intervenção organizada na sociedade ou Igreja portuguesas.

Espaço de partilha e procura, de abertura a outros diferentes, sem juízos prévios e precipitados, de celebração e aprofundamento da fé vivida como relação com Jesus e com os outros é assim que o Metanoia proporciona a descoberta de sentidos para a vida. Deste modo estamos na Igreja em Portugal e contribuímos para a sua renovação, sem nos escondermos nem exibirmos.

Nos últimos dois anos, procurou-se, ainda que de forma um tanto esporádica, criar laços com outras experiências cristãs. A participação de alguns associados na dinâmica Nós Somos Igreja, a publicação de um número da Viragemsobre os temas da Petição, a participação numa assembleia do C.N.M.O., os convites a outros movimentos e comunidades cristãs para algumas iniciativas do Metanoia foram alguns passos que devem ter seguimento.

Resta saber se entre uma disposição de intervenção sistemática nos fóruns da Igreja em Portugal, que não parece viável face às prioridades de vida dos associados, e uma dinâmica que vale sobretudo pelo significado que tem para os que nela participam não haverá um caminho de uma maior visibilidade e partilha da nossa experiência cristã.

Corresponsabilidade e coordenação

O Metanoia tem sido, ao longo destes doze anos, aquilo que os seus associados têm sido capazes de concretizar. Nas dinâmicas locais, nas iniciativas a nível nacional, a iniciativa e a participação têm ultrapassado sempre o núcleo restrito que mais directamente tem responsabilidades de coordenação. A disponibilidade é diferente nas diversas fases das nossas vidas pessoais. Exigências familiares, de carreira profissional ou mesmo de predisposição interior condicionam a participação de cada um de nós. Numa experiência de cristãos adultos não faz sentido apelar a esforços militantes e sacrificados para realizar o que está claramente acima das nossas possibilidades. Em liberdade, cada um encontrará a ocasião e os meios de contribuir para uma dinâmica que é, sobretudo, construção colectiva.

Assim tem sido, também, com os meios financeiros de que dispomos para manter esta aventura. Resultam exclusivamente das quotizações regulares dos associados e das dádivas que queiram fazer, salvaguardando sempre o princípio de que nunca será por falta de dinheiro que algum associado deixará de participar na vida do Metanoia.

Daqui nasce a exigência de uma grande clareza na prestação de contas: cada associado tem o direito de saber o destino que é dado à sua contribuição para o Metanoia. No último ano, têm sido introduzidos processos que contribuirão, dentro em breve, para uma melhor prestação de contas. O recurso a uma contabilista profissional foi uma das medidas adoptadas, assim como um maior cuidado na documentação das receitas e das despesas.

A preocupação de manter uma estrutura de coordenação leve, que não sobrecarregue em excesso os que se dispõem a assumir tarefas de coordenação, tem sido uma constante.

Seis equipas coordenadoras sucederam-se durante estes doze anos. Alguns dos seus membros permaneceram por mais do que um biénio, mas tem-se registado uma razoável renovação dos que aceitam acompanhar e coordenar com mais cuidado a vida do Metanoia (ver anexo). As equipas e os respectivos coordenadores tiveram estilos e características diferentes que se reflectiram na vida do movimento. No essencial, este serviço tem constituído uma experiência exigente, mas simultaneamente muito compensadora pela reflexão desenvolvida, pelos laços que se estabelecem, pelo contributo para a esta rede de encontro e amizade que é o Metanoia.

Numa dinâmica de cristãos adultos, que apostam na corresponsabilidade e na liberdade, nem sempre é fácil encontrar o estilo adequado de coordenação. Interligar, colaborar, apoiar, envolver sem se ser intrometido é um saber nem sempre fácil de pôr em prática. Importa conhecer a opinião dos associados dos diferentes locais para que a próxima equipa coordenadora introduza os reajustamentos necessários.

Outra questão que ciclicamente se coloca à coordenação diz respeito à expansão do Metanoia. Com dinâmicas regulares de encontro existem núcleos de associados em Braga, Castelo Branco, Lisboa e Porto. Deve a coordenação tomar iniciativas para criar novos núcleos de associados em locais onde não existem? Ou deve esperar que seja solicitada? Algumas experiências falhadas mostram que não vale a pena tentar vender o Metanoia a quem não manifestou grande interesse em conhecê-lo e nele participar. Por outro lado, mantemos a convicção de que esta dinâmica cristã poderia ter sentido para muitos que não a conhecem. Mas conhecê-la será sempre conhecer alguém, conversar com alguém que conhece e convida... não fosse o Metanoia uma longa conversa, um tempo e espaço de relação. Por isso, não é de alinhar em campanhas sistemáticas de divulgação porque o que somos não é facilmente explicável, é uma relação em que se entra. Serão, pois, os associados, com a sua sensibilidade e iniciativa, os principais agentes de uma maior visibilidade do Metanoia.

Conclusão

Mais importante do que tudo o que fica dito e registado é o sentido que para cada um tem a sua participação nesta experiência cristã. Aquele texto ou encontro, aquela conversa e a noitada e a festa e os amigos de há muito ou recentes... Para uns mais assiduamente, para outros mais esporadicamente, o Metanoia tem sido um espaço de encontro e confronto, de descoberta e reconhecimento, de festa, de celebração e, sobretudo, de relação que alimenta e renova a nossa fé no Ressuscitado e dá sentido e gosto às nossas vidas.

Doze anos volvidos, há com certeza novos reajustamentos a fazer, aspectos a aperfeiçoar, desafios a enfrentar. A Assembleia Geral que vamos realizar, mais do que um momento formal imposto pelos Estatutos, será a ocasião para conversarmos sobre nós, dos nossos anseios e frustrações, desta forma vivermos a fé em Jesus Cristo. Possa o presente texto ajudar a uma avaliação participada dos caminhos percorridos e à definição de algumas orientações para o futuro que contribuam para que o Metanoia seja, cada vez mais, um espaço de liberdade e corresponsabilidade, de vivência da fé no encontro com os outros.

Porto, 2 de Setembro de 1998

ERT 2018

 
 
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