PROPOSTA PARA UMA |
|
|
|
|
1.
No início do terceiro milénio a violência continua a ser uma constante na
história da humanidade. Muitos são os motivos que alimentam as guerras:
diferenças religiosas e/ou culturais, conflitos ideológicos e políticos,
reivindicações territoriais, acesso a recursos naturais, a dinâmica própria
dos interesses específicos do binómio sistema militar/indústria do
armamento, o desejo de poder a todo o custo. O
fim do bipolarismo e a apregoada nova ordem internacional, ao contrário do
que alguns previam, não contribuíram para a resolução pacífica dos
conflitos que continuam a provocar milhões de mortos e mutilados um pouco
por todo o mundo e a impedir que muitas pessoas vivam em condições mínimas
de dignidade. Ruanda, Sudão, Kosovo, Tetchénia, Argélia, Colômbia,
Angola, Médio Oriente, Afeganistão, Iraque são algumas regiões do mundo
onde o absurdo da guerra se manifestou recentemente
e, em alguns casos, continua a manifestar. Mesmo
em situações aparentemente pacíficas, a violência é, sob muitas formas,
uma realidade quotidiana que destrói vidas e condena à sobrevivência em
condições iníquas uma multidão de seres humanos. Não serão o
desemprego, o analfabetismo, a insegurança, as desigualdades crescentes,
a exploração, os futuros roubados manifestações de violência com
as quais constantemente nos confrontamos? Não
estamos nós imersos num ciclo infernal em que o recurso à guerra e à violência
é apontado como única forma de “controlar” ou de se defender da violência
de outros? 2.
Na convicção de que a violência não é uma inevitabilidade, o Metanoia – Movimento Católico
de Profissionais dedicou dois dos seus encontros nacionais à reflexão
sobre a não-violência, publicou o caderno A Não-violência –
nostalgia de um sonho ou exigência de vida, em Julho de 2000, e tem
vindo a divulgar a reflexão desenvolvida por alguns dos seus associados
sobre o tema na revista Viragem. Na
sequência destas iniciativas, propomos a outros cristãos, movimentos e
comunidades cristãs, bem como a todos os homens e mulheres de boa vontade, o presente
texto que pretende consubstanciar um compromisso inequívoco a favor da não-violência
por parte dos cristãos portugueses e de todos aqueles e aquelas, que animados por outras convicções,
reconheçam que a não-violência é o caminho – difícil, é certo –
para enfrentar os conflitos com que nos deparamos, seja no nosso quotidiano,
seja à escala planetária. 3.
Reconhecemos que as diferentes confissões cristãs têm, ao longo da História,
invocado Deus para legitimar a guerra, enquanto detentoras de uma verdade
revelada que deve ser concretizada historicamente. Noutras situações, têm
contemporizado com a violência que aniquila o outro, desenvolvendo as
teorias da guerra justa[1]. Não adianta, pois,
ignorar ou tentar justificar o uso, a contemporização ou legitimação da
violência por parte das várias confissões cristãs porque só conhecendo
a nossa história de violência podemos cortar com ela. 4.
Tem o cristianismo, enquanto religião messiânica, inscrito em si uma lógica
de violência e dominação? Mesmo quando a história parece dizer que sim,
a contemplação do Crucificado, daquele que numa doação amorosa de si
aceitou perder, foi ressuscitado e está vivo, a contemplação desse
“homem de dores, acostumado ao sofrimento”, que se humilhou
voluntariamente e não abriu a boca[2]
diz-nos que só por grave cegueira pode decorrer do cristianismo uma lógica
messiânica legitimadora da dominação. Portanto, à luz da radicalidade
evangélica não faz sentido teorizar sobre a guerra justa. 5.
Foi também no âmbito das religiões, inclusive do
cristianismo e da inspiração evangélica, que a dominação e a guerra
foram mais seriamente questionadas e que a não-violência se constituiu
como um quadro consequente de vida e intervenção social.[3]
A verdade deixa, então, de ser entendida como algo que se tem e deve ser
anunciado e, no limite, imposto aos outros para o “seu bem”, para passar
a ser resultado de uma busca que passa necessariamente por “procurar
conhecer-se em profundidade a si próprio, aos outros e às envolventes
circunstâncias históricas, sociais, políticas, económicas e religiosas.
Daqui resultará a atitude de profunda humildade daquele que sabe e aceita
que a verdade não é pertença absoluta e exclusiva de ninguém em
particular. A verdade não se tem. Buscar a verdade, por isso, é recusar
diabolizar o inimigo e, ao invés, desejar integrá-lo também neste
processo de procura de verdade – da verdade que liberta[4]
– porque até no inimigo mais empedernido há sempre algo de aproveitável,
há sempre uma bondade potencial, ainda que embotada. Esta atitude, em vez
de gerar um ódio de morte ao outro, conduz a encará-lo como alguém capaz
de mudar, convertível.”[5] 6.
Não confundimos não-violência com passividade, cobardia ou desistência
de lutar pela justiça. Afirmação de si, agressividade e conflito são
inerentes à condição humana. Não têm forçosamente que
assumir a forma de violência, de desejo concretizado de destruição
do outro, do diferente, do que nos mete medo. E não é pelo facto de a
guerra ter sido uma constante na História da Humanidade que assim tem de
continuar a ser. A
Humanidade dispõe hoje de recursos materiais e espirituais que lhe permitem
prescindir da violência como forma de garantir a sobrevivência e é possível
a partir de um processo lento e difícil, porque cultural, inaugurar uma
nova era civilizacional de humanização, de enriquecimento pessoal e
comunitário através do confronto e da compreensão do outro, do diferente,
não mais entendido como uma ameaça. Hoje
é possível pensar a evolução da Humanidade fora dos quadros da violência.
7.
Não é, no entanto, esse o senso comum, o caminho mais evidente. “Se
queres a paz prepara a guerra” é um provérbio que resume o
adversarialismo que ainda hoje domina a acção política e as práticas
sociais.[6]
Não é, também, o caminho mais fácil tanto do ponto de vista colectivo,
como pessoal. Requer persistência, paciência e vigilância. Por isso,
“se alguém pensar que já alcançou um estádio de recusa absoluta da
violência, esse ignora-se a si mesmo. O adepto da não-violência trava
todos os dias consigo próprio um combate. Já não será então somente a
recusa da força bruta como meio de solução dos problemas, mas de todas as
formas de violência, sobretudo as mais requintadas e subtis. É este o
princípio da autêntica convivência, do viver conjuntamente, do estar-com
(...)”[7].
“Como é preciso aprender a matar para praticar a violência, assim se
deve estar preparado para morrer para praticar a não-violência”,
dizia Gandhi. Ter
este princípio como horizonte de vida pressupõe um profundo e persistente
trabalho interior porque ”a
não-violência não recusa o conflito, mas procura transformá-lo em fonte
de crescimento e de amadurecimento da consciência e da solidariedade
humanas, consciente dos limites e precariedade desse mesmo processo.”[8]
Este é um desafio que cada um há-de colocar, em primeiro lugar, a si
mesmo, ainda que a partilha e a reflexão societária constituam um
incentivo e encorajamento que previnem a desistência de tão exigente
processo de construção espiritual. 8.
Convictos de que, na fidelidade à mensagem evangélica, vale a pena dar
passos no sentido de uma cultura de não-violência, comprometemo-nos a: ·
Desenvolver
e divulgar nas nossas publicações e sites um pensamento que recuse
o adversarialismo simplista que tende a dominar o senso comum e
permita uma consciência dos problemas na sua complexidade, evitando o
desalento e permitindo valorizar o presente como futuro em construção; ·
Dar
a conhecer organizações e iniciativas que se pautem por critérios de não-violência,
de defesa dos direitos humanos, de promoção da cooperação e do
desenvolvimento, de reinserção social centrados na valorização das
pessoas e das comunidades; ·
Potenciar
a objecção de consciência para que, através dos comportamentos e das
atitudes individuais e sociais, se realize a mobilização para as mudanças
capazes de reduzir a violência e instaurar novas formas de relacionamento; ·
Reforçar
os laços com organizações que se ocupam da solidariedade e
desenvolvimento a nível internacional, de modo a desenvolver uma compreensão
da interdependência dos problemas e das suas soluções; ·
Estudar,
desmontar, denunciar as lógicas económicas que alimentam as guerras
ligadas aos interesses da indústria de armamento e trazer essas questões
para o debate público no plano nacional e internacional; ·
Promover
espaços de formação para jovens e adultos em que se treine a resolução
não-violenta de conflitos porque uma cultura das mediações e da não-violência
pressupõe uma pedagogia das mediações e da não-violência.[9] Metanoia
– Movimento Católico de Profissionais Proposta aprovada na Assembleia Geral do Metanoia em 26 de Outubro de 2002
[1]
A teoria da guerra justa contribuiu, no passado, para limitar a violência
arbitrária de elites guerreiras.
[2]
Is 53
[3] Francisco de Vitória, António Vieira, Bartolomeu de Las Casas questionaram a conquista das Américas pelos Impérios Ibéricos; é inegável uma profunda motivação religiosa em Gandhi e Martin Luther King, dois vultos incontornáveis na teoria e prática da não-violência.
[4]Jo
8,32
[5]
José Rosa, A Não-violência como Horizonte de Convivência,
in Poiética do Mundo. Homenagem a Joaquim Cerqueira Gonçalves,
Lisboa, Colibri, 2001
[6]
Ver José Manuel Pureza, A Política ao Serviço da Paz, in Pedaços
de uma Fé Crítica, Quarteto, Coimbra, 2002.
[7]
José Rosa, idem
[8]
António Matos Ferreira,
“Viver de um outro modo”, in “Não Violência – nostalgia de um
sonho ou exigência de vida”, Cadernos METANOIA, Lisboa, 2000.
[9]
Segue-se de perto a formulação de António Matos Ferreira in “Viver
de um outro modo”, in “Não Violência – nostalgia de um sonho ou
exigência de vida”, Cadernos METANOIA, Lisboa, 2000.
|
|