Instante
é a obra mais recente de Wislawa Szymborska traduzida entre nós (o original é de 2002, a edição , na Relógio d'Água,
de Janeiro de 2006). Poetisa polaca, prémio Nobel da Literatura em 1996, a sua escrita transporta a concentração
e a largura do silêncio profundo em que amadurece. Uma poesia que testemunha deste século, suas demências e
com alguma ironia por vezes, com um insuspeito pudor iluminante.
O único mote do poeta, insiste sempre Szymborska, é a consciência da própria ignorância.
No discurso Nobel insiste: "o que quer que seja a inspiração, só de um contínuo não sei pode nascer".
E adiante: "Todo o conhecimento [científico, poético] que não nos conduz a novas questões morre depressa.
Em verdade não consegue manter a temperatura indispensável à sustentação da vida".
Por isso os poetas se olham a si próprios com suspeição: o seu labor não é mediático nem fotogénico,
preferem dizer-se escritores ou outra coisa qualquer. A situação, reconhece a autora, é similar à dos filósofos,
que no entanto podem sempre embelezar-se com um qualquer título académico: "Professor de Filosofia: soa muito melhor".
Ouçamo-la:
"A alma vai-se tendo.
ninguém a tem constantemente
nem para sempre.
Dia após dia,
ano após ano,
pode passar-se sem ela.
Às vezes,
é nos arroubos e medos da infância
que se instala por mais tempo.
Outras vezes, é no espanto
perante a nossa velhice.
Raramente nos assiste
nas tarefas maçadoras,
como deslocar uns móveis,
carregar umas malas
ou calcorrear uma estrada com as botas apertadas.
Quando se preenche um inquérito,
ou se pica a carne,
regra geral, está de folga.
Em mil conversas nossas,
participa numa,
e não necessariamente,
pois prefere o silêncio.
Quando o corpo nos começa a doer e a doer,
ela abandona furtivamente o seu posto.
É caprichosa:
com desagrado nos vê na multidão,
repugna-lhe a nossa luta por uma tal prevalência
e o matraquear dos negócios.
Alegria e tristeza
não são para ela sentimentos distintos.
apenas na ligação dos dois
está ela ao nosso lado.
Podemos contar com ela,
quando de nada estamos certos,
porém curiosos de tudo.
Dos objectos materiais,
gosta dos relógios de pêndulo
e dos espelhos que trabalham assiduamente
mesmo sem ninguém olhar.
Não diz de onde vem,
nem quando tornará a deixar-nos,
mas espera evidentemente por tais perguntas.
Parece que
tal como ela a nós ,
também nós
lhe servimos para algo".
Uma recolha de poesia anterior apareceu em 1998, também na Relógio d'Água,
sob o título Paisagem com grão de areia.