Cenários para uma Guerra Global

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Umberto Ecco - In, “Público” – 18 de Novembro de 2001

 

A questão que nestes dias perturba as consciências de todos não é se o terrorismo é bem ou mal ou se é preciso erradicá-lo mesmo que seja de forma violenta: sobre isto há um consenso unânime, pelo menos no Ocidente e em muitos países árabes e, inclusivamente, até um pacifista admite em qualquer reacção de legítima defesa é indispensável uma certa dose de violência. Se assim não fosse, não deveriam existir forças policiais, e não seria preciso usar a violência contra alguém que dispara sobre a multidão.

Os verdadeiros problemas são outros: se a guerra é a forma adequada da violência e se o confronto que nos espera se deve converter num confronto de civilizações - ou, se se preferir, de culturas -, ou numa guerra entre o Este e o Ocidente. Daqui para a frente usarei, por comodidade, a expressão "guerra E/O", do mesmo modo que durante a guerra fria se considerava, com muita flexibilidade geográfica, Este a Checoslováquia e Oeste a Finlândia, Este a China e Oeste o Japão.

Naturalmente que ao falar de um confronto entre o mundo cristão e o mundo muçulmano, incluo entre os cristãos todos os ocidentais, incluindo os ateus e os agnósticos, e no mundo muçulmano também os fieis de pouca fé que bebem vinho às escondidas sem se preocuparem minimamente com o Corão.

Por um lado, as operações de guerra podem levar as massas fundamentalistas do Oriente a tomarem o poder nos vários Estados muçulmanos, nomeadamente em alguns dos que apoiam os Estados Unidos. Por outro, a intensificação dos atentados insustentáveis pode levar as massas ocidentais a considerarem o Islão no seu conjunto como o inimigo. O que nos conduziria a um confronto frontal, o Armagedão decisivo, o choque final entre as forças do Bem e do Mal (e cada parte consideraria Mal a parte contrária). Este não é um cenário impossível. Por isso, como todos os cenários, devemos traçá-lo até às suas últimas consequências.

Admito que para o fazer é preciso praticar a arte da ficção científica. Mas também a explosão das duas torres foi antecipada por muita ficção científica cinematográfica. Assim, os cenários de ficção científica, embora não digam necessariamente o que vai acontecer, servem para dizer aquilo que poderia ter acontecido.

Choque frontal, sim, tal como no passado. Porém, no passado havia uma Europa com fronteiras bem definidas, com o Mediterrâneo entre cristãos e infiéis e os Pirinéus, que mantinham isolada a parte ocidental do continente que ainda era em parte árabe. Pelo que o confronto poderia assumir duas formas: o ataque ou a contenção.

O ataque foi o que aconteceu com as Cruzadas, mas já se sabe o que se passou. A única cruzada que conduziu a uma conquista efectiva (com a instalação dos reinos francos no Médio Oriente) foi a primeira. Depois, durante um século e meio (com Jerusalém de novo nas mãos dos muçulmanos), houve mais sete, sem contar com as expedições fanáticas e insensatas como a chamada cruzada das crianças. Em todas elas, a resposta ao apelo de São Bernardo ou dos pontífices foi pouco entusiasta e confusa.

A segunda cruzada foi mal organizada; a terceira viu o Barba Ruiva morrer no caminho, os franceses e ingleses chegarem à costa inimiga e, depois de algumas conquistas e algumas negociações, regressarem a casa. Na quarta, os cristãos esqueceram-se de Jerusalém e ficaram a saquear Constantinopla. A quinta e sexta, foram praticamente duas viagens de ida e volta. Na sétima e oitava, o bom do São Luis lutou bem, mas não obteve nada de consistente e morreu ali. Fim das cruzadas.

A única operação militar de êxito foi, mais tarde, a Reconquista de Espanha. Porém, esta não foi bem uma expedição do ultramar. Foi mais uma luta de reunificação nacional que não resolveu o confronto entre os dois mundos, mas apenas deslocou a linha fronteiriça.

No que se refere à contenção, os turcos detiveram-se perante Viena, ganhou-se a batalha de Lepanto, erigiram-se torres na costa para avisar os piratas sarracenos, e assim durante alguns séculos.

Os turcos não conquistaram a Europa, mas o confronto permanece.

Depois, nos últimos séculos, assistimos a um novo confronto: O Ocidente espera que o Oriente se debilite e coloniza-o. Como operação, sem dúvida que teve êxito e durante muito tempo, mas estamos hoje a ver os seus resultados. O confronto não desapareceu, pelo contrário, agudizou-se.

Poderia dizer-se que, afinal de contas, o Ocidente ficou a ganhar. A Europa não foi invadida pelos homens do turbante e da cimitarra, e estes viram-se obrigados a aceitar, em sua casa, a tecnologia ocidental em grande medida. O que poderia ser considerado um êxito, não fosse ter sido graças a essa tecnologia ocidental que Bin Laden conseguiu derrubar as duas torres. Imagino que os fabricantes ocidentais de armas esfregam as mãos cada vez que conseguem vender alta tecnologia bélica ao Oriente, e que para celebrarem compram um barco novo de 100 metros de largura. Se isso vos faz sentir bem, então alegrem-se, rapazes, porque tereis vencido.

Mas até agora faltei à minha promessa e falei de história, não de ficção científica. Passemos à ficção científica, que tem a consoladora vantagem de não ser verdade no momento em que se imagina.

Voltemos, pois, a delinear o choque frontal; ou seja, a guerra E/O.

Em que se diferencia este choque dos confrontos do passado? No tempo das cruzadas, o potencial bélico dos muçulmanos não diferia muito do dos cristãos: espadas e máquinas de assédio estavam à disposição de ambos. Hoje, o Ocidente tem vantagem em relação à tecnologia de guerra.

É verdade que, nas mãos dos fundamentalistas, o Paquistão poderia usar a bomba atómica, mas quanto muito conseguiria arrasar, por exemplo, Paris e imediatamente as suas reservas nucleares seriam destruídas. Se um avião norte-americano caísse, construiriam outro: se caísse um avião sírio, teriam dificuldades de comprar outro ao Ocidente.

O Este arrasa Paris e o Oeste lança uma bomba atómica sobre Meca. O Este difunde o botulismo por correio e o Oeste envenena todo o deserto da Arábia, como se faz com os pesticidas nos imensos campos do Midwest, e até os camelos morrem. Estupendo. Também não duraria assim tanto, quando muito um ano; depois, todos continuariam com as pedras, mas eles sairiam a perder.

Com uma ressalva: há outra diferença em relação ao passado. No tempo das cruzadas, os cristãos não necessitavam do ferro dos árabes para fazer as espadas, nem os muçulmanos do ferro dos cristãos. Agora, pelo contrário, até a nossa tecnologia mais avançada vive do petróleo, e quem tem o petróleo são eles, pelo menos a maior parte. Eles sozinhos, sobretudo se lhes bombardeiam os poços, não o podem extrair; mas nós ficamos sem ele. A não ser que se lancem de pára-quedas milhões de soldados ocidentais para conquistar e vigiar todos os poços, mas nessa altura seriam eles que os fariam ir pelos ares, e além disso uma guerra terrestre, nesses países, não é tão fácil.

O Ocidente teria, portanto, de restruturar toda a sua tecnologia para eliminar o petróleo. E visto que até hoje não conseguiu fazer um automóvel eléctrico que ande a mais de 80 quilómetros por hora e que leva uma noite inteira a recarregar, não sei quanto tempo demoraria este reconversão. Mesmo sem contar com a vulnerabilidade das novas centrais, seria preciso muito tempo para propulsar os aviões e os tanques, e fazer com que as nossas centrais eléctricas funcionassem com energia atómica. Além disso, teria de se ver se as Sete Irmãs estariam de acordo. Não me espantaria que as empresas petrolíferas ocidentais estivessem dispostas a aceitar um mundo islamizado desde que continuassem a obter lucros.

Isto não termina aqui. Nos bons velhos tempos, os sarracenos estavam de um lado, para além mar, e os cristãos de outro. Se durante as cruzadas, os árabes (quem sabe disfarçados) tentassem erigir uma mesquita em Roma, seriam degolados e não voltariam a tentar. Hoje, em contrapartida, a Europa está cheia de muçulmanos que falam os nossos idiomas e estudam nas nossas escolas. Se já hoje alguns deles se aliam aos fundamentalistas do seu país, imaginemos o que aconteceria se tivéssemos uma guerra E/O. Seria a primeira guerra com um inimigo albergado em nossa casa e assistido pela segurança social.

Mas, atenção, o mesmo problema colocar-se-ia no mundo islâmico, que tem em sua casa indústrias ocidentais e, inclusivamente, enclaves cristãos como a Etiópia. Como o inimigo é mau por definição, damos por perdidos todos os cristãos do outro lado do mar. Guerra é guerra. Eles são desde o princípio carne para canhão. Haveremos de os canonizar a todos, maistarde, na Praça de São Pedro.

E o que faremos no nosso país? Se o conflito se radicaliza mais do que o devido, e caírem outros dois arranha-céus, ou mesmo São Pedro, termos uma caça ao muçulmano. Uma espécie de noite de São Bartolomeu ou de Vésperas Sicilianas: apanha-se qualquer um que tenha bigode e uma pele não excessivamente branca e degola-se. Trata-se de matar milhões de pessoas, contudo a multidão ocupar-se-á disso sem necessidade de molestar as forças armadas. Naturalmente, teria de se ver se também se degolaria um árabe cristão, ou um siciliano que não tenha olhos azuis de normando, mas somos tão politicamente correctos que no bilhete de identidade não figura se somos cristãos ou muçulmanos e, além disso, há que desconfiar também dos europeus ruivos que se tornaram infiéis.

Como já se disse na guerra contra os albigenses, de momento matamo-los a todos, e depois Deus reconhecerá os seus. Por outro lado, não nos podemos arriscar a fazer uma guerra planetária e permitir que fique em nossa casa um único fundamentalista, que depois pode vir a actuar como "kamikaze".

Poderia prevalecer a voz da razão. Não degolamos ninguém. Mas até os norte-americanos, tão liberais, no princípio da II Guerra Mundial recolheram em campos de concentração, embora com muita humanidade, todos os japoneses que tinham em casa, embora eles tivessem nascido ali. Portanto (e sempre sem fiar fino), localizamos todos os muçulmanos possíveis - e se, por exemplo, forem etíopes cristãos, o que faremos com eles, Deus reconhecerá os seus - e pomo-los em algum sítio. Onde? Com a quantidade de extracomunitários que andam pela Europa, para construir campos de prisioneiros seria necessário um espaço, organização, vigilância, comida e cuidados médicos insustentáveis, sem contar que esses campos seriam bombas que rebentariam com o simples facto de juntar uns milhares, e que não se podem fazer campos para grupos de quatro.

Ou, se não, apanhamo-los a todos (não é nada fácil - mas ai de nós se ficar um único que seja! - e há que fazê-lo depressa, de uma só vez), carregamo-los a bordo de uma frota de barcos mercantes e descarregamo-los... Onde? Dizemos: "Perdão, senhor Kadhafi; perdão, senhor Hussein, não se importaria de ficar com este carregamento de três milhões de turcos que estamos a tentar expulsar da Alemanha?" A única solução seria a dos traficantes de imigrantes: atirá-los ao mar. Milhões de cadáveres flutuando no Mediterrâneo. Gostaria de ver que governo se atreveria a fazê-lo, seria muito pior que os desaparecidos, até Hitler massacrava a pouco e pouco e às escondidas.

Como alternativa, visto que somos bons, deixamo-los tranquilos em casa, mas atrás de cada um pomos um agente policial a vigiá-lo. E encontramos tantos agentes? Recrutamo-los entre os extracomunitários. E se acontece como nos Estados Unidos, onde as companhias aéreas, para poupar, deixavam que os imigrantes do terceiro mundo fizessem o controlo nos aeroportos e, depois, achavam que eles não eram de fiar?

Naturalmente, todas estas reflexões poderiam ser feitas, do outro lado da barricada, por um muçulmano sensato. A frente fundamentalista não seria imediatamente vencedora, uma série de guerras civis ensanguentariam os seus países culminando em horríveis massacres, também caíriam sobre eles contragolpes económicos, teriam menos comida e ainda menos medicamentos dos poucos que têm actualmente, morreriam como moscas.

Porém, se partirmos do ponto de vista de um choque frontal, não devemos preocuparmo-nos com os problemas deles, mas com os nossos.

Voltando, pois, ao Oeste, criar-se-iam dentro das nossas fileiras grupos filoislâmicos, não pela fé, mas por oposição à guerra, novas seitas que negariam optar pelo Ocidente, seguidores de Gandhi que se sentariam de braços cruzados e recusariam colaborar com os seus governos, fanáticos como os de Waco que começariam (sem serem fundamentalistas muçulmanos) a desencadear o terror para purificar o Ocidente corrupto. Mas não é imprescindível pensar só nestas minorias. Estou a pensar na maioria.

Aceitariam todos a redução de energia eléctrica, sem poder recorrer sequer às lâmpadas de petróleo? O obscurantismo fatal dos meios de comunicação e não mais de uma hora de televisão por dia? Andar de bicicleta em vez de automóvel? Cinemas e discotecas encerrados, fazer bicha no McDonald's para ter a ração diária de uma fatia de pão de sêmea com uma folha de alface?

Resumindo, o fim de uma economia próspera e de esbanjamento?

Imaginemos o que importa a um afegão ou a um palestiniano viver em economia de guerra, para eles nada mudaria.

E para nós? Que crise de depressão e desmotivação colectiva enfrentaríamos? Estaríamos dispostos a aceitar o apelo de um novo Churchill que nos prometeria sangue e lágrimas? Se nós italianos, depois de 20 anos de propaganda fascista sobre a nossa missão civilizadora, a certa altura estávamos encantados por perder a guerra desde que cessassem os bombardeamentos! É certo que esperávamos em troca a chegada dos norte-americanos bons com as suas rações, enquanto que agora esperaríamos os serracenos maus que matariam os padres e os frades e poriam um véu nas nossas mulheres, mas estaríamos tão motivados de forma a não aceitar qualquer sacrifício?

Não se formariam nas ruas da Europa cortejos de oradores esperando desesperados e passivos o Apocalipse? Temos admirado a resistência e a energia patriótica dos norte-americanos depois da tragédia de 11 de Setembro, porém, apesar de toda a indignação e solidariedade que sentem, continuam a ter o seu bife do lombo, o seu automóvel e, quem se atreva, as suas linhas aéreas.

E se a crise do petróleo provocasse um apagão, a falta de Coca Cola e do Big Mac, a visão dos supermercados desertos com apenas uma lata de tomate ali e uma bandeja de carne com o prazo de validade caducado aqui, como vimos em alguns países do leste europeu em momentos de máxima crise? Até que ponto continuariam a identificar-se com o Ocidente os negros do Harlem, os deserdados do Bronx, os chicanos da Califórnia, os caldeus do Ohio (sim, existem, eu vi-os, com os seus vestidos e os seus rituais)?

O Ocidente (e os EUA mais que ninguém) fundaram a sua força e a sua prosperidade acolhendo em sua casa gente de qualquer raça e cor. Em caso de confronto frontal, será que aguentariam esta fusão?

E, por último, que fariam os países latino-americanos, onde muitos, sem serem muçulmanos, criaram sentimentos de rancor em relação aos gringos, ao ponto de, mesmo depois da queda das torres, haver quem sussurre que eles estavam a pedi-las?

Resumindo, a guerra E/O poderia muito bem mostrar um Islão menos monolítico do que se pensa, mas logo veria uma cristandade fragmentada e neurótica, onde pouquíssimos se apresentariam como candidatos a novos templários, ou seja, os "kamikaze" do Ocidente.

Eu não estou a inventar estes cenários de ficção científica. Há 30 anos, embora sem prever uma guerra total, mas apenas um apagão acidental, Roberto Vacca idealizou cenários apocalípticos como estes na sua obra "Medioevo prossimo futuro".

Repito: tracei um cenário de ficção científica e, naturalmente, espero, como todos, que não se torne realidade. Mas fi-lo para dizer o que, raciocinando com lógica, poderia ocorrer se estalasse uma guerra E/O. Todos os incidentes que previ derivam da globalização e, saliento, os interesses e exigências das forças em conflito estariam estreitamente entrelaçados, como já estão, numa meada que não se pode dobar sem destruir.

O que significa que, na era da globalização, uma guerra global é impossível, isto é, levaria à derrota de todos.

 *Escritor e semiólogo italiano

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